Flo Steinberg: Legado

Julho não foi um mês gentil para os ícones da historiografia Marvel. Após a morte de Joan Lee, cuja imagem e personalidade idealizada foram nitidamente elementos fundamentais para a concepção de personagens importantes como a Gwen Stacy e a Sue Storm (nos títulos The Amazing Spider-Man e Fantastic Four, respectivamente), morreu Florence Steinberg, uma das participantes originais da mítica Bullpen e uma das faces públicas da Marvel na sua gênese na década de 60, cuja popularidade se deve em parte à Steinberg.

Nascida em Boston, Massachusetts, Flo foi à Nova Iorque em março de 1963 para buscar um emprego, lugar onde foi recebeu a demanda de Stan Lee por intermédio uma agência de emprego para exercer a função de assistente no escritório na ainda incipiente Marvel Comics (cuja contratação fazia dos dois na época os únicos funcionários efetivamente contratados, sendo o restante da staff autônomos, decisão esta tomada por Martin Goodman em 1957), que contava com o engatinhar do Quarteto Fantástico e com histórias já estabelecidas para o público feminino como Patsy Walker. Como o grupo de quadrinhos ainda estava longe de ser um hit, o trabalho não era tão extenuante nesse período e a correspondência mais recorrente eram envios de designs originais de fãs sobre roupas para Patsy.

No cargo, ela desempenhou um papel espontâneo pessoalizado no que diz respeito às relações públicas da editora com os leitores, em que assumiu a responsabilidade de receber e responder cartas dos fãs ávidos por mais pedacinhos de informação sobre o futuro e também de estreitar o contato com os arquitetos daquela Nova Iorque fictícia, conforme as histórias cresciam. Disso, Flo Steinberg contou que o primeiro momento em que o feedback dos fãs se avolumou de forma significativa (o que pessoalmente considero surpresa nenhuma) foi na série do Homem-Aranha, os quais Sean Howe descreve no livro Marvel Comics: A História Secreta como “os garotos fanáticos que apareciam e tentavam passar por cima de Flo Steinberg para conhecer seus heróis”. Essa leva de leitores fieis rapidamente encheriam as solicitações de participações no fã-clube oficial Merry Marching Marvel Society, o que mesmo sobrecarregando as suas tarefas de vez (a ponto de ter que trabalhar nos fins de semana), a moça continuaria com seu característico tratamento amável em responder o que fosse o possível.

Esse efeito diferencial de reduzir as formalidades robóticas corporativas para estabelecer uma política popular de se passar uma imagem de família feliz era tão efetiva para a marca que não só os fãs aumentavam exponencialmente, como também fazia alguns artistas se sentirem um pouco mais benquistos em trabalhar no ambiente da Marvel do que em outros lugares, tal como Jim Mooney em sua experiência pessoal com o tratamento da secretária. A Bullpen Bulletin, suplemento feito pela editora em que Steinberg fazia parte (publicado pela primeira vez em Fantastic Four #10), é um exemplo de adoção integral dessa postura, em que reunia todo o staff de criação para se tornar um clube no qual se alimentavam alcunhas e piadas internas (ela recebera o apelido “Fabulous”), que reforçavam o senso de pertencimento sedutor àquele grupinho Marvel por parte do leitor. Conforme dito por ela, essa atitude agradara não só o público, que desejava saber mais sobre os autores, mas também a posições outrora pouco valorizadas, como coloristas e letristas, que se sentiam mais valorizados com esse destaque nos créditos.

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pinterest.com

Como nada dura para sempre, a editora passou por uma série de turbulências em 1968, incluindo dificuldades financeiras e atritos com os artistas. Flo saiu oficialmente da Marvel pela recusa dos Goodman em aumentar o seu salário em mais cinco dólares por hora, uma vez que, de acordo com as suas palavras, “Eles não acreditavam em dar aumento para certos cargos porque eram fáceis de substituir” (HOWE, 2012), e foi substituída por Robin Green. Ao sair, Steinberg fez uma incursão no mundo dos quadrinhos independentes como editora e deu a partida, em parceria com várias colaboradores, a revista Big Apple Comix em 1975, que era uma coletânea de histórias baseadas na cidade de Nova Iorque.

Nos anos 90, ela voltaria a trabalhar na Marvel como leitora de revisão.Sua imagem continuaria a ser lembrada nos anos subsequentes, como a sua aparição  em Ultimate Fantastic Four no arco dos Skrulls, homenagem de Mark Millar.

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Flo Steinberg caracterizada na publicação What-If #11 (1978), no qual imagina-se um mundo em que os principais membros do Marvel Bullpen (Stan Lee, Sol Brodsky, Flo Steinberg e Jack Kirby) fossem o Quarteto Fantástico. Arte de Jack Kirby.

Olhando em retrospecto, é importante notar que a Marvel não usava exclusivamente a questão de humanização nos personagens, como também nas personalidades que trabalhavam naquele mundo em sua estratégia de marketing. Tal como Jack Kirby, porém em um sentido diferente, Flo Steinberg é um dos vultos do triunfo de uma editora antes underdog que progressivamente foi conquistando os leitores e que tomou a responsabilidade de encarnar o coração carismático dela nos seus primeiros dias, o que implica em uma dívida histórica inestimável. Sua morte é um triste fim simbólico à memória de um episódio curioso na longa história dos quadrinhos, que inspirou muitos a imergir na mídia  e a contribuir em seu desenvolvimento.

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