Maravilhas

Acompanhar o mundo compartilhado dos quadrinhos mainstream é uma tarefa árdua em duas fases: quando criança, no qual é praticamente impossível comprar cada pedacinho cronológico presente nas bancas e quando se envelhece, a qual já se é uma etapa de exaustão de ver pessoal de colante colorido fazer as mesmas coisas para sempre dentro de um terreno gigantesco de informações a que se deve ter conhecimento prévio para compreender. Para contornar esse problema, a Marvel, que desde 60 representa uma certa inovação criativa (leia-se ter remendado ideias derivativas para maquiar um conceito “novo” expressos nas explosões visuais de gente como Jack Kirby e Steve Ditko), tentou renovar a ideia de super-herói em diversos períodos para atualizar seu produto nuclear em relação ao contexto em que se inseria: o malfadado Novo Universo Marvel, as reformulações de personagens como o Homem-Aranha, Thor e Homem de Ferro de 80 a 90 passando o manto para outros (sim, vejam só, antes desses SJW geração mimimi estragarem meus super-heróis com essa agenda esquerdalha!), Heróis Renascem e, mais recentemente, o universo Ultimate de 2000 e, em uma mídia além dos gibis, o projeto ambicioso do MCU. E esse último, particularmente, guarda hoje o universo mais interessante, para o bem ou para o mal, da editora.

Apesar das dores de dente que são a partilha de direitos dos personagens pela Sony, Fox e Universal para conseguir emular a multiplicidade de  personagens e conceitos interessantes que co-existem nas histórias (e muitas delas interdependentes entre si), o universo cinemático da Marvel foi erguido a partir da percepção de que era possível usar os Vingadores como carro-chefe de uma grande franquia, equipe esta alçada ao primeiro plano da Terra-616 novamente pelo trabalho a longo prazo do Brian Michael Bendis no excelente New Avengers. Através de uma tática a qual apresentava os personagens principais individualmente em filmes estáveis, mas formulaicos e desprovidos de ambição inventiva, a produção almejava algo inédito até então, que é transpor o senso de influência de eventos de um filme nos outros, tal como reforçado no atrativo Marvel original, que era justamente a sensação de consequência reverberante de um título para outro dentro de uma Nova Iorque compartilhada. E ainda voltando no mérito dos desafios de produção, ainda se soma a cizânia pessoal do Ive Perlmutter, CEO da Marvel e responsável pelo que seria no futuro a Marvel TV com o Kevin Feige, responsável direto pelos filmes que hoje em dia reporta diretamente à Disney. Mesmo sendo um fator o qual seria lógico concluir que esse fato minaria o plano de transmídia entre as séries da ABC/Netflix, no futuro elas conseguiram estabelecer conexões contextuais e foram, em sua maioria, bem recebidas pelo público e crítica, apesar de que a conexão reversa (os eventos ou pessoas das séries aparecerem nos filmes) seja completamente nula até agora.

Com os dividendos de 2012, estava aparentemente provado cabalmente que a coisa tinha dado certo: mesmo com filmes medíocres de personagens B pouco conhecidos previamente do público, o trabalho de marketing ao embutir o selo “Marvel” neles e a dinâmica hollywoodiana de manter esses filmes em padrões estético-temáticos imutáveis transformam esses filmes em produtos rentáveis que retornam bem aos executivos, que pouco ou nada se importam com a natureza desses seres fictícios, tampouco da qualidade subjetiva das produções, uma vez que o único sinônimo conhecido para “qualidade” deles é a quantidade de zeros no lucro obtido.

No entanto, essa prática para apetecer a sociedade de consumo ávida por mais experiências aventurescas no cinema desse mundo (o que inclui o público casual e fãs antigos e os renovados que conheceram pelos filmes) implica exatamente no mesmo problema anedótico enfrentado pelos quadrinhos: a criação de um imbróglio cronológico monstruoso a longo prazo, o que implica na obrigação de se estar a par de detalhes da narrativa do universo como um todo, e não como uma única franquia (tal como o experimento de ver os três filmes do Capitão América dispensando todo o restante de filmes), análogo a ser forçado a ler As Aventuras do Capitão Cueca #473 para compreender holisticamente o contexto do Espetacular Senhor Sífilis #562. Isso leva ao temível quadro de…

Ultimatização

O universo Ultimate, ou Terra-1610, começou como um sopro fresco de revitalização nos seus personagens para leitores novos e antigos em um novo milênio que trouxe à tona ao século XXI os heróis Marvel mais uma vez. Por intermédio de um trabalho de equipes criativas, como o Bendis e Mark Bagley em Ultimate Spider-Man e Mark Millar com o Bryan Hitch trabalhando na re-imaginação dos Vingadores batizada de Os Supremos (o mais próximo de clássico que essa equipe teve ao longo da vida, inclusive), o universo Ultimate era uma criatura coesa que era de fácil compreensão inicialmente e que, dado o seu sucesso, chegou por um bom tempo a levantar a possibilidade de suplantar o universo tradicional como o principal do editora. No entanto, o que aconteceu foi o pior: o peso da cronologia acumulada por um grande período de tempo acabou por cair dos ombros e esmagar o ultiverso. Decisões equivocadas como a sucessão dos desastrosos Supremos Volume 3 e Ultimatum não ajudaram, e, em vez de dar o golpe de misericórdia nesse corpo moribundo, a Marvel insistiu em prolongar esse sofrimento, tornando a continuação dessas histórias completamente irreconhecíveis pela ausência de personagens importantes que foram mortos ao decorrer de tudo e histórias sofríveis (Kid Demolidor vampiro do Steve Dillon em Ultimate Avengers, os Supremos massavéio do Jeph Loeb e Frank Cho, os X-Men com o filho do Wolverine). Mortes desnecessárias, origens conceituais de personagens cada vez mais modificadas e uma linha de acontecimentos cujo clímax tornaria qualquer coisa depois disso sepultou o interesse suscitado pelo universo Ultimate. Essa descrição não se parece com algo?

Ok, ok, pode ser uma comparação injusta e descabida, pois até agora nenhum personagem do MCU teve suas raízes conceituais alteradas drasticamente, mas de todos os heróis disponíveis, qual foi o filme que mais desvirtuou o cerne de um super-herói em decorrência de um processo de linha cronológica?

Spider-Man: Homecoming

(possíveis spoilers do filme Chico Xavier: Nosso Lar)

Apesar do Aranha superficial ser realmente perfeitamente reproduzido na versão do Tom Holland, essa encarnação apresenta uma fragilidade enorme a ponto de ameaçar comprometer tudo: a ausência de uma menção ao Tio Ben somada com a vontade incontrolável do Peter Parker de impressionar Tony Stark para entrar nos Vingadores faz parecer que a equipe de seis (?) roteiristas do filme foram introduzidos ao personagem por intermédio de tirinhas de Facebook. Ok, sendo justo, é evidente que isso não somente é uma forma de entrelaçá-lo ao restante desse universo Marvel cinemático como também se afastar das duas franquias anteriores (Raimi e Webb) como forma de se obter a própria identidade. Como a origem dele é tão conhecida no imaginário popular quanto a do Super-Homem e a do Batman, é compreensível omitir a reprodução de mais uma vez um idoso ser baleado e pessoas ficarem tristes, no entanto isso é uma pedra de roseta tão fundamental no personagem que ao menos uma vez isso deveria ser trazido em consideração, nem que seja em um único monólogo ou diálogo (sendo justo, há um comentário sobre a tia May em que se subentende isso). O motor do Homem-Aranha é a lição de consciência dura que a vida o ensinou por ter se omitido de fazer a coisa certa, o que dispensaria Parker de passar por mais um arco de personagem para finalmente perceber isso. Se feita a leitura cinemática que a motivação dele é ser aceito por um time pelo qual ele é deslumbrado, a impressão que se tem é que os atos dele no filme não se configuram em altruísmo, e sim de interesse mesquinho. Além disso, os apetrechos de vender bonequinhos e a comunicação com o Homem de Ferro/JARVIS II parcialmente mutilam a essência solitária do personagem, bem como reduzem a sensação de ameaça e desproporcionalidade de habilidades entre o Aranha e o seu algoz, que também é parte integrante de suas características (enfrentar ameaças maiores do que ele pode lidar em prol de ajudar o próximo). Apesar de ser uma adaptação, o que implica em alterar coisas para o formato midiático em questão, essa falta ameaça o garoto como o ícone que é, e por vezes fica dúbio se ele faz o que faz por caráter ou por interesses próprios.

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Uma relação mais interessante a ter sido explorada poderia ser trabalhar com o Nick Fury em vez do Homem de Ferro, e não como a figura de mentor, e sim como um contraste entre a juventude e o cinismo do mundo adulto o qual Peter gradualmente irá lidar ao confrontar ameaças maiores.

No entanto, o filme conta com um fato que praticamente anula isso: ser excelente mesmo sendo vulgar em cinematografia e roteiro como o restante dos filmes do Marvel Studios, porque só pelo fato de o maior e mais humano de todos da Marvel ter voltado para a casa, isso resulta no possível melhor filme do MCU até agora mesmo enfrentando uma série de adversidades do estúdio e seus histórico (isto vindo de alguém que só acha genuinamente bons 2 outros filmes do MCU) por exibir as melhores qualidades de uma típica história Marvel.

A sensação do vermelho, azul e preto singrando o subúrbio com teias, a juventude exalando como um filme do John Hughes e a fórmula do drama balanceado com a ação do Ditko com o Lee são perfeitamente apresentados ao decorrer da história. Até em relação a essas motivações acima, é evidente ao longo do filme que o Homem-Aranha é uma boa pessoa e que não age artificialmente, sendo uma interpretação para isso é que o ingresso nos Vingadores é uma forma de se validar como um herói maior para ser orientado pelos grandes e proteger o maior número de pessoas possíveis, uma vez que nessa cronologia eles não são somente os Heróis Mais Poderosos da Terra, mas também os únicos. Logo, agir sob a égide deles não é por ser ambicioso e egoísta, e sim para fazer o bem de uma forma mais profissionalizada e cumprir o seu ciclo de responsabilidade.

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E para os detratores dessa ideia, vale lembrar que um dos primeiros atos do Homem-Aranha após assumir o manto é tentar se juntar com o Quarteto Fantástico, tanto nesta edição quanto em uma história hoje mais não canônica do universo Ultimate

Outro elemento fantástico é o uso do elenco de apoio, algo clássico do escalador de paredes. Mesmo sendo como o episódio dos sucos do Chaves no que diz respeito a nomes e aparência, essa é uma esfera que ajuda a incrementar a sensação de mundo adolescente, algo tão intricado na gênese do herói, o qual tem um microcosmo dentro do universo Marvel. E em relação a questão Homem de Ferro, uma outra visão sobre isso é que ele é na verdade o verdadeiro antagonista do filme em vez de um mentor, cujos valores, em contraste com o do Aranha, mostram que a abnegação heróica e ignorar os limites para se tentar carregar o mundo nas costas sozinho é o que o torna tão singelo, uma detalhe que, simbolicamente, substitui o Homem de Ferro como a cara da Marvel atualmente e retoma essa posição de direito a maior criação da Casa das Ideias, que é o, sem exagero de epíteto, o Espetacular Homem-Aranha.

Presente e futuro

O advento dos Guardiões da Galáxia, o Doutor Estranho e do Homem-Aranha foram uma diversificação bem-vinda no que outrora era um estéril Vingadoresverso. As agruras de sustentar um fio narrativo complexo desses por anos e os problemas logísticos em reunir uma equipe considerável de atores interagindo entre si exigirá bastante, mas o resultado, pelo menos por agora, passou de razoavelmente satisfatório para empolgante de verdade. Como uma espécie de Elseworld, é possível nele consumir novas histórias de antigos conceitos assimilados por fãs inveterados de diferentes gerações, seja na Heróis da TV, Teia do Aranha, na Marvel Millenium, e isso é uma sensação fora de série para qualquer marvete que foi alfabetizado com esse pessoal se digladiando por Manhattan, independente dos defeitos óbvios expostos. Ainda se deve temer o desgaste desses filmes e o seu eventual sepultamento, mas, após quase dez anos, é hora de aproveitar ao máximo o que provavelmente é agora o auge desses heróis nas telas.

Dos saltos do Demolidor na Cozinha do Inferno usando o traje vermelho pela primeira vez, do zunido do escudo de Vibranium do Capitão América, do farfalhar dos feitiços de Stephen Strange em Greenwich Village ao barulho do lança-teias do Homem-Aranha, é quase tão surreal quanto arrepiante testemunhar o que o Phil Sheldon chamou de “maravilhas” certa vez sendo materializadas perante nossos olhos, a maior parte delas fruto da criação fervilhante de um escritório em Nova Iorque há quase 60 anos que tentava escapar do fim.

 

 

 

 

 

 

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