Os indicados do prêmio Eisner 2017 – algumas considerações

Chegou a época: enquanto que em mais no início do ano existe uma premiação auto-congratulatória que desde 2008 em diante parece ser completamente incapaz de acertar o melhor filme do ano de fato, de abril para maio alguns ectomorfos míopes socialmente disfuncionais e tiozões no mundo delusional da ditadura bolivariana brasileira voltam as suas atenções para o Prêmio Eisner. Já que os quadrinhos aparentemente estão amaldiçoados perpetuamente à marginalização, é um bom jeito de prestar atenção no que saiu de bom (pelo menos na opinião de meia dúzia de pessoas da banca que indicou as quais, segundo Alan Moore, contam com “uma vida pessoal terrível”) mas não soubemos, porque foi eclipsado pelo chorume habitual do mainstream super-heroico, e também validar o nosso suposto bom gosto. Vamos dar tapinhas nas costas/cuspir veneno em cima de algumas?

Saga, Paper Girls e a poderosa Thor como melhor serialização em andamento:

É francamente uma satisfação diabólica ver três gibis da Image suplantando os da Marvel e DC aqui, sendo essa última, mesmo com o Rebirth, não conseguiu convencer a cúpula pseudo-cult da organização da premiação dos seus carros-chefe. Este ano, Brian K. Vaughan está com a macaca e emplacou Saga (em parceria com Fiona Staples), que está na categoria pessoal “é, tenho que ler isso aí pra ver se é bom mesmo” para decidir se as vendas significativas realmente representam algo sólido ou são somente hivemind de Tumblr, enquanto que Paper Girls (com Cliff Chiang)  foi uma grata surpresa. A trama das garotas e o jornal no fundo não tem exatamente nada demais, apesar de ser consistentemente bom e, infelizmente, render comparativos ao tépido Stranger Things. Aparentemente, há uma amnésia geral a respeito da existência de histórias nesse clima há 30 anos. Esse aí já tinha sido indicado ano passado para o de melhor nova série.

Talvez aqui a verdadeira surpresa seja a Thor Jane Foster conseguir um lugar ao sol, apesar de eu duvidar da sua vitória no fim. A run do Jason Aaron e do Russel Dauterman foi um vento fresco no título (uma combinação comparável à dupla J. Michael Straczynski e Olivier Coipel), porém não é para tanto, afinal são histórias divertidas padrão e nada que force muito a mídia em seus limites de linguagem ou em inovação concreta.

O que faltou:

Sem dúvidas, Doutor Estranho (2015) no lugar da Thor. Mesmo com o arco inicial do Empirikul sendo um material recauchutado do arco do Carniceiro dos Deuses no Thor da Marvel Now, escrito pelo próprio Aaron nas páginas do herói em 2013, a guinada em seguida é uma loucura servida pelo estilo do Chris Bachalo e o bom uso de cores do Townsend, o que faz  essa fase ser uma das melhores que o personagem já desfrutou recentemente, principalmente pelo conceito inventado da troca equivalente na utilização da mágica relacionado ao lore do Doutor Estranho. Junto com a Thor, um dos melhores títulos da iniciativa All-New, All-Different na categoria historinhas padrão legais.

Vale um adendo ao Capitão América Sam Wilson aqui, que se não fosse o fato de que o Daniel Acuña não desenhou completamente o título e o arco tie-in de Pleasant Hill, é uma excelente série e aborda pontualmente temas sensíveis sobre a relação entre política e sociedade dos Estados Unidos atual (e a subsequente ironia do nome desse país), bem como alfineta metalinguisticamente os próprios detratores do Falcão como Capitão América no mundo real.

 

Han Solo v. Visão – Dawn of Justice

Na esteira do fascínio eterno incompreensível por Guerra nas Estrelas no imaginário popular (e mais importantemente, do dinheiro gerado pela franquia), a aquisição pela Marvel há uns anos fez pipocar uma penca de séries, que mesmo sendo medíocres (no sentido não pejorativo), são gibis honestamente interessantes. O maniqueísmo entediante do núcleo principal Jedi contra o Lado Sombrio faz realmente acharmos interessante qualquer coisa mais cinzenta, como o núcleo faroeste da série, o que talvez justifique a escolha, apesar de apostar que existem peixes maiores para escolher. E aqui, como não poderia deixar de faltar, concorre o Visão, favoritíssimo a abocanhar o Prêmio. Com o clima creepy incutido pelo Tom King (Grayson, Batman) e materializado pelo Mike del Mundo (que agora ilustra Vingadores), Visão é com certeza a gema de maior brilho da Marvel de 2016, graças à inteligência da condução da história.

O que faltou:

Reformulando a frase aqui: não o que faltou, mas que eu achava que ia ser indicado, e que graças a Deus e a um lampejo de bom senso, acabou não sendo, foi Imperatriz, de Mark Millar e Stuart Immonen. Difícil não chamar a atenção com uma dupla de peso dessas, mas Imperatriz, apesar da arte de cair o queixo do Immonen, é só uma história banal cujo final ofensivo só mostra que tal como o Todd McFarlane, hoje o Millar é mais um empreendedor do que um quadrinista. Vale uma menção honrosa ao título Luke Cage e Punho de Ferro, que infelizmente não conseguiu manter o ritmo do primeiro arco, mas acabou com uma certa dignidade.

 

A Harpia, a Faith e o Exterminador

Na categoria “melhor série”, é um pouco duvidoso isso aí, afinal se o dito “nada é tão ruim que não possa ficar pior” é verdadeiro, é ainda mais fácil estragar algo bom no decorrer. Harpia já terminou (em oito edições), e certamente não é nada demais, além de gostoso de ler. Aquela estética e identidade de gibizinho indie dentro do mainstream não impressiona mais há um bom tempo. Faith (da editora Valiant) está engatilhado nas leituras aqui pela premissa que instiga o interesse, e Exterminador

89

O que faltou:

Resumidamente, não faço ideia, afinal é para isso que serve essa categoria, direcionar-me a novas leituras.

 

Esquilos e morcegos

Na categoria de quadrinhos para jovens (13-17), destacam-se a Garota-Esquilo e a Batgirl do Rafael Albuquerque. Enquanto a primeira é ofensivamente ruim, a Batgirl, tá ok, vai lá, posso dizer que não é tão “ééé, vamos ver o que essa garotada gosta fala hoje em dia” e, se comparada àquele soft reboot da personagem nos Novos 52, é o melhor gibi do mundo. No fundo, é uma categoria cujas obras tentam desesperadamente a aprovação de millenials ou seja lá como gostam de julgar esse público-alvo dessa faixa etária, o que torna as histórias meio parecidas umas com as outras, do linguajar ao estilo visual.

O que faltou:

Hellcat (Marvel), sem sombra de dúvida. Não é minha praia, mas é uma leitura mais orgânica que a artificialidade chata de Garota-Esquilo.

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Uma descrição precisa dessa categoria

 

Dark Knight: a True Batman History

Obras auto-biográficas, ou pendem para a auto-congratulação insípida, para a chafurdação na lama da auto-piedade, ou a mais profunda qualidade. Em uma obra extremamente honesta, Paul Dini nos agracia, dentro dessa categoria de histórias baseadas em fatos reais, um excerto de sua psiquê e, no caminho reverso de um evento aqui influenciar em sua produção, aqui vemos a relação da obra de um homem extrapolando a fronteira da realidade e dialogando com o indíviduo. Fascinante, e muito especial.

O que faltou:

Bom, faltou-me o acesso ao restante dessas revistas, mas se serve de material para preencher esta lacuna, li recentemente Bolinhas de Gude (Joseph Joffo e Vicent Bailly, baseado no livro homônimo de 1973), que inclusive foi indicado nesta mesma categoria em 2014, e poderia concorrer de novo, né?  ¯\_(ツ)_/¯

A Segunda Guerra Mundial já foi retratada à exaustão por diversas mídias, mas isso não impede essa história ter fôlego e relevância. Resta a esperança para uma vinda ao Brasil.

Vitória: Orange e Punpun indicados ao melhor material do quadrinho asiático

Não sei exatamente de onde vem o hype em cima de Orange, mas ok, é uma boa história com começo, meio e fim redondinhos. O que brilha aqui é o licenciamento de Punpun e a atenção que ele chamou em terras estadunidenses. Outrora restrito a um círculo na internet de mangás um pouco mais obscuros, Oyasumi Punpun (ou Boa Noite, Punpun) a obra seminal de Inio Asano, puxa agora as luzes dos holofotes para si. Um retrato visceral cheio de nuances e ambiguidades, Punpun é um mergulho na psiquê humana por meio de uma série de recursos sofisticados que tecem a história, que a tornam um drama tão único e amado pelos leitores.

O que faltou:

Haikyuu!!, da Viz Media em 2016, um delicioso mangá de esportes que ruma a passos largos para fazer história no mundo dos quadrinhos japoneses (caso o Haruichi Furudate não estrague tudo antes). Aliás, tanto esse como Punpun, com esse sucesso arrebatador nos EUA, bem que podiam acelerar a vinda deles ao Brasil…

 

Melhor escritor:

Voltando à Harpia, ainda não sei o que viram na Chelsea Manchester United Cain, mas ela figura entre os indicados. Com certeza, o vencedor será o Vaughan, porque sabe Deus como ele consegue equilibrar a qualidade trabalhando em tanta coisa diferente…

Melhor desenhista:

Também não sei o que veem de especial na run atual do Pantera Negra e seus desenhos, mas seja lá o que for, o Brian Stelfreeze está concorrendo nesta seção, junto com a Fiona Staples de Saga. Dado a febre que é essa obra, o resultado já parece garantido.

Melhor capista:

Não desmerecendo, mas não dá: Mike Del Mundo na Cabeça, apesar de que o David Mack  e suas aquarelas foram uma grata surpresa aqui.

Melhor material relacionado a quadrinhos:

Apesar do peso do Steve Ditko e o livro Ditko Unleashed: An American Heroa publicação blanc et noir: takeshi obata illustrations bem que merecia um reconhecimento, devido ao poder absoluto do lápis do Takeshi Obata. Mas está certo, dou o braço a torcer aqui, o livro sobre o Ditko deve ser um tesouro sobre um dos artistas mais importantes do florescimento dos super-heróis Marvel e a sua mente impenetrável.

Melhor webcomic:

Meh, todas me parecem o mesmo. Torcendo por On Beauty, pois me parece a obra mais original de um universo no qual toda webcomic se parece com a outra em temática e estética.

Você pode conferir a lista completa do Newsarama aqui.

 

 

 

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