Asa Noturna – Como o Batman foi superado

“O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.”

 Jean Paul Sartre 

Com fortes influências exercidas pelo Sombra, o Batman foi um conceito desenvolvido e publicado pela primeira vez em 1939, e de lá para cá sofreu diversas alterações. O herói sofreu mudanças no visual, no equipamento, no contexto em que vive, no elenco que o cerca e principalmente em sua personalidade, na qual criaram uma certa profundidade psicológica desconjuntada na dinâmica Bruce Wayne/Batman, digna de filosofia de boteco. Entretanto, com mais de setenta e cinco anos nas costas, essas coisas já deram no que tinham que dar. Mudaram-se tudo, menos ele mesmo.

Se há algo que eternamente me escapará a compreensão, é do motivo pelo qual o Batman continua sendo um personagem popular, mesmo sendo um cara chato pra caralho. Com histórias repetitivas no seu gibi solo, na Liga da Justiça, ou seja lá em que história ele apareça para alavancar vendas, lá está estampado em sua face uma constante expressão antipática e atitudes grosseiras com os seus próprios companheiros, e que por algum motivo isso é benquisto e considerado como um traço positivo porque as razões desse azedume interminável são “completamente justificadas”. Nenhum homem é uma ilha, e nisso até mesmo ele está disposto a concordar, dada a sua inclinação em trabalhar com outros vigilantes, porém sempre travado por uma de frescuras, concessões, códigos absurdos de confiança e comunicação por murmúrios. Então, porque não enveredar pela opção natural e suplantar em definitivo um personagem tão desgastado como esse?

Através da visão bem definida do Frank Miller sobre o começo e o fim do personagem na década de 80, o desafio de fazer algo nessa altura ou superar esse material nos quadrinhos ficou virtualmente impossível de se cumprir. Histórias fechadinhas interessantes, um arco legal aqui e ali, boas adaptações na mãos de um verdadeiro especialista em um desenho animado e uma série de games atual fase consistentemente estável do Tom King ainda não conseguem estancar a ferida incômoda que é o fato de que as suas histórias estão fadadas a uma repetição cíclica dos mesmos temas, e ainda por cima incapazes de explorar seu potencial máximo, uma vez que o público-alvo das histórias impede a possibilidade de se ir longe demais nos assuntos abordados (o mais próximo que ele chegou da pegada Vertigo é Asilo Arkham, do fim da década de 80). Não importam quantos novos status quo inventem, o problema da estagnação do personagem não é solucionada, e nem sequer poderia, pois como ele faz parte de uma lógica de histórias publicadas tendendo ao infinito, seria impraticável. Logo, para resolver isso, a solução mais lógica seria substituir o detentor do manto icônico e trocar Bruce Wayne por um seu primeiro e mais querido discípulo, não seria? Quase foi, mas não durou. Razão? Covardia de largar o osso.

Dick Grayson, outrora o Robin, foi um personagem criado unicamente com o intuito de materializar as fantasias das crianças leitoras por meio de uma senso de através de um garoto combatente do crime nas histórias. Não era fantástico? Um ajudante mirim para um desvairado obsessivo auxiliando na interminável cruzada contra o crime organizado e supervilões galhofas, vestido com um uniforme tão coloridamente espalhafatoso que deveria ser tentador transformá-lo em alvo prioritário para as submetralhadoras nas mãos da máfia, o que é uma ideia tão maravilhosa que virou o panfleto-mor do brilhante Fredric Wertham. Então, por meio de um leeeeeeeento e raso desenvolvimento de personagem, Robin se juntou também às fileiras dos Titãs e em dado momento, cresceu o bastante para perceber que talvez não fosse uma ideia tão boa continuar combatendo violência com mais violência trajando uma sunguinha de escamas verde, sapatos de leprechaun e pernas impecavelmente depiladas. Depois de uma conversa com o Super-Homem, Grayson adotou a persona de Asa Noturna, e começou a agir de modo independente do Batman.

grayson2

Parecia uma boa ideia

https://www.hyperborea.org

Bruce Wayne o adotara porque viu o seu próprio eu no interior do garoto, pois seus pais também foram assassinados vítimas de criminosos, e com o talento natural detetivesco demonstrado pelo acrobata, Batman decidiu direcionar o senso de justiça de Dick Grayson para algo produtivo. No entanto, mesmo guardando tantas semelhanças, eles possuem uma diferença fundamental: a forma com a qual lidaram com a dor.

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Batman: Vitória Sombria (Jeph Loeb e Tim Sale)

Um dos remorsos de Alfred Pennyworth foi a forma titubeante de se portar perante a tragédia dos Wayne. Com o garoto Bruce agora completamente sozinho em um mundo cruel, Alfred não podia pretender ser um pai substituto, e sim um mordomo blasé a la Vestígios do Dia. Essa solidão e o rompimento de laços abrupto com os pais tornaram uma outrora criança doce em um ser alquebrado e incapaz de evoluir, mesmo aprendendo absolutamente tudo (leia-se “tudo” como “o que for conveniente para o funcionamento do roteiro”). As mortes de Jason Todd e o incidente com Barbara Gordon não ajudaram, tornando-o cada vez mais distante e relutante em confiar nos outros (outra coisa que as histórias não dão um caralho, porque depois ele abre mão disso para trabalhar com novos personagens que surgiriam, como Timothy Drake ou Stephanie Brown). Nas palavras do próprio no divertido episódio “Kid’s Stuff” do desenho da Liga, Batman retruca a aproximação da Mulher-Maravilha e rejeita a ideia de reviver a inocência infantil (o que ocorre no episódio em questão) com uma frase tão fria quanto triste, que denota sua imaturidade emocional e incapacidade de tentar superar as feridas no seu coração. Uma frase de efeito que pode impressionar adolescentes edgy, mas que no seu âmago é algo bem lamentável.

Enquanto isso, Dick Grayson progride a cada alter ego que assume. Com as lições que o passado ensinou, Alfred tenta se redimir com Grayson por meio de uma abordagem mais pessoalizada, como um avô que pretende consertar suas falhas de paternidade. Uma característica recorrente das histórias do Batman é o quão relutante e sarcástico Alfred é em relação à empreitada incansável do morcego, crítica essa tecida com base na falta de limites que Bruce impõe a si mesmo. Com Dick, por outro lado, reside uma luz interior que não apagou mesmo após a morte dos pais, a qual Alfred busca conservar e não deixar ele perdê-la por meio do contato com a sujeira da cidade. Em suma, o mordomo tem esperança que Grayson não se perca nas trevas como aconteceu com Wayne, e, por uma providência divina, assim aconteceu.

A alegria e o humor saltimbanco do Robin era o que tornava a expressão “dupla dinâmica” verdadeira. O contraste do mundo cinzento do Batman com a puerilidade de Robin era o que fazia essa equipe ser interessante, até o natural crescimento do menino, e não só físico. Com personalidade própria e questionadora a respeito dos métodos do mentor, porém sem nunca menosprezá-lo, Robin seguiu o próprio caminho e cresceu de forma estável (isto é, dentro dos limites que a carreira heróica pode proporcionar), o que o permitiu criar relacionamentos saudáveis de diversas naturezas com os colegas, como nos Titãs, com Estelar e com a Batgirl, em vez da cara fechada permanente de Batman nas reuniões da Liga, seu tino por ser desagradável com os integrantes da “Bat-Família” (termo este que pessoalmente detesto), sua completa inabilidade em ter uma conversa natural com Jim Gordon e suas idas e vindas românticas inconclusivas com seja lá quem for a mulher-objeto da semana, cujo único propósito sempre é mostrar o quanto Bruce é atormentado por si mesmo.

O passo final foi se tornar o dito cujo, Batman. Após a Crise da Crise da Crise da Crise, Bruce Wayne aparentemente tinha morrido, e Gotham precisava da figura do Batman. Logicamente, os olhos se voltaram ao Asa Noturna, e relutantemente o filho adquiriu o capuz do pai, porque a exigência para cumprir os feitos do primeiro era alta, bem como a ideia de ser comparado ao seu próprio mestre era desagradável, e ambos eram perfeccionistas nesse sentido.

Batman-Robin-Vol.-1-2-2009

ifanboy.com

Com a parceria com o outro filho (o biológico), o personagem desfrutou de um dos gibis mais viajados e divertidos da DC nesse período, que na primeira fase da série foi encabeçado pelo Grant Morrison, que apesar de ser um grande de um pretensioso, é competente em escrever mensais que não tenham muita ambição no projeto. Mas não tardou até que Bruce Wayne voltasse de alguma quizumba espaço-temporal francamente incompreensível para tudo voltar ao que era antes e, assim, estragar todo o desenvolvimento dessa ideia, apesar de que era planejado por Morrison fazer isso desde o começo. Mesmo assim, isso não isenta a culpa de jogar por terra a troca de identidades mais interessante feita em quadrinhos de super-herói desde Bucky Barnes assumir o escudo do Capitão América em 2008.

O apelo é muito simples: alguém, por favor, dê cabo a Bruce Wayne. O personagem já foi levado ao limite do rocambolesco e voltou, o que resulta em histórias sem sal posteriormente, como um aumento progressivo na heroína no muquifo de Transpotting que eventualmente levará ao colapso. E, com isso, o caminho seria aberto para Dick Grayson novamente, personagem que prometeria aventuras e conflitos novos, pois sua personalidade bem resolvida com as técnicas adquiridas com o seu mestre seriam dois elementos-chave na capacidade de se inovar com os títulos do Batman, e ainda por cima seria um atrativo para uma nova leva de leitores, aos quais estariam dispensados da necessidade excruciante de conhecimento cronológico na ponta da língua. E, no fim das contas, é a continuação natural de gerações na guerra contra o mal, na qual o filho ostenta o brasão do pai tombado em batalha.

batman e tim drake

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