Thor #600 – Vitória

BOR LIFA ENDR!

Um pouco de contexto

Na geração pós-pós-pós Superaventuras Marvel e Heróis da TV essa última revista da Editora Abril cujo número real de heróis transmitidos pela televisão era zero (a razão desse nome é o fato de ter herdado o título deste mix) , o acesso fácil à informação e notícias online a respeito das publicações relativas a super-heróis em Terra Brasilis amortece o impacto da sedução dos títulos através da capa, pois pressupõe-se que já dá para saber vendo um checklist, e também mitiga a surpresa do conteúdo, afinal as grandes saladas de megaeventos mirabolantes que vão mudar o Universo Marvel para sempre! são alardeadas à náusea pela mídia especializada para satisfazer os anseios dos fãs bitolados em inserir mais informações cronológicas nas suas cabeças. E aliás, a frequência irritante em que são publicados esses “acontecimentos importantes” acabam também banalizando o sentimento do termo “importante”, o que faz que a ansiedade pelo leitor médio de ver aquelas dezenas de personagens de colante colorido mais uma vez se engalfinhando pelos cosmos por seja lá que razão ser não muito diferente de um dependente químico babando no chão e se arrastando atrás da próxima dose injetável na jugular.

Para se somar a isso, da década de 90 ao estabelecimento da Panini como o arauto das revistas Marvel e DC em 2002, era visível uma profunda falta de uma autêntica iconicidade super-heróica nas capas de seus mixes, se colocada em comparação aos explosivos divisores de água desenhados por lendas como Byrne, Simonson ou Buscema, que mesmo no Brasil publicados no formatinho e não no maravilhoso e caro formato americano da Panini, elas definiram uma era e representaram fases de fato memoráveis no público. Inclusive, a impressão era que o departamento editorial estava deliberadamente sabotando a seleção das capas, uma vez que eles pareciam ter a inclinação de escolher as mais bisonhas, as quais representavam perfeitamente a esquecível fase do início dos anos 2000, de artistas duvidosos, coloração digital saturada e histórias torturantes. Mesmo entre as melhores, as esquisitices tridimensionais das capas do Homem-Aranha Ultimate do Mark Bagley ou a simplicidade simétrica semi-preguiçosa de John Cassaday em Astonishing X-Men que estampava as capas de X-Men Extra não “chegavam lá”. Mesmo as capas tecnicamente bem compostas dos Supremos pelo Bryan Hitch ou a sujeira decadente experimental de Alex Maleev em Demolidor, eram algo um pouco adulto e, portanto, não tinham exatamente aquele quê magnético inocente do período de 60 para 70, e, portanto, de nada expressavam a fantasia juvenil pura que eram coisas como o Thor de pé na ponte Bifrost arqueando o Mjolnir em iminência de golpear o todo-poderoso Surfista Prateado.

Então, no meio do Reinado Sombrio, fase evidentemente temporária da Marvel que sucedia a série Invasão Secreta e na qual víamos um Norman Osborn mais Lex Luthorizado do que nunca e virtualmente no comando da cadeia de segurança nacional dos EUA no Universo Marvel, o que para efeito de comparativo faria parecer menos grave a eleição do Charles Manson como o próximo presidente do país, eis que surge nas bancas:

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http://www.guiadosquadrinhos.com/

Assim como o mix enganoso do Zé Carioca da Abril que por vezes só publicava Irmãos Metralha na edição inteira, Os Novos Vingadores, para evitar avançar demais no espaço de distância com o material original com o título New Avengers, passou 2 edições seguidas publicando tapa-buracos e histórias desinteressantes intermináveis do Capitão América. Porém, eis que vem Thor #600 e sua explosiva capa dupla abençoada pelas mãos do Coipel, uma grata compensação desse vácuo da série do Bendis e um tesouro das publicações recentes do mainstream.

A força imparável encontra o objeto inamovível

Para culminar na cabalística edição de número 600 de um dos personagens mais significantes da historiografia Marvel, o Poderoso Thor merecia uma história digna, e seria cunhada pelo talento criativo do J. Michael Straczynski (cujo legado na editora até esse momento eram, além da consistência razoável no Thor, as histórias do Esquadrão Supremo e as controvérsias na longa run dele no Homem-Aranha), aliado ao lápis habilidoso do francês Olivier Coipel (que até lá tinha ilustrado Dinastia M e no futuro desenharia O Cerco). Na fase em questão, na qual Asgard flutuava por cima da árida Oklahoma, o Deus do Trovão retornava para um mundo em que seus antigos companheiros estavam divididos entre super-humanos registrados contra super-humanos ilegais e um reino sem Odin. Enquanto isso, as maquinações de Loki, nesse momento no interior de uma nova casca e conselheiro real (afinal, parece ser uma boa ideia manter o Deus da Mentira sussurrando constantemente no ouvido da corte), iriam culminar no confronto entre Thor e seu avô, o guerreiro mítico Bor. Para chegar até isso, Straczynski adicionou no lore desses personagens elementos uma mixórdia mitológica greco-nórdica simples, porém competente, da questão da pré-determinação do destino através do sangue tal qual Urano, Cronos e Zeus, tudo isso presente no arco em questão, Em Nome do Pai. E aqui, o resultado é uma das melhores histórias da historiografia do personagem.

A estrutura da história é exatamente como uma saudosista releitura de um conto da antiga parceria Lee-Kirby em Journey Into Mistery: Loki, em um cenário distante dos olhos de curiosos, invoca um problema para atormentar o seu meio-irmão tão odiado, essa criatura causa problemas na rocha fétida que é Manhattan, e Donald Blake deve largar seu emprego módico temporariamente para bater o cajado no chão, se transformar no seu Alter-Ego, brandir o Mjolnir em direção aos céus, balbuciar mentalmente um monólogo expositivo pseudo-shakesperiano e impedir o vilão da semana (e por tabela frustrar Loki).

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pinterest.com

Só que dessa vez não é tão simples.

Bor, imerso na ilusão do feitiço de Loki, não abre concessões na violência empregada contra o pesadelo projetado na sua mente. Nos painéis feitos pelo Coipel, sobram carros voando e concreto destruído nas ruas, o que denota de forma explícita a gravidade da situação, assim como que aparentemente poucos podem lidar com isso, até Thor chegar e tentar uma conversa. Porém, com a ilusão do feiticeiro permeando a cabeça do ressuscitado avô de Thor…

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Para o dinamismo efervescente do combate, AQUI está o truque: domínio absoluto de quadrinização para tecer uma narrativa visual. Através do direcionamento de foco entre dois quadrinhos na lança que Bor arrasta no chão, Coipel adiciona uma espécie de corte que dá uma nova camada de intensidade no golpe, em vez de colocar isso no primeiro quadrinho, em que Bor grita. Por consequência, o terceiro representa uma cratera resultante do impacto das duas forças opostas, consequência do grito visual que é o quadrinho intermediário, no qual a linguagem corporal na pose de Thor, somada com o seu olhar, mostra surpresa e improviso na defesa, rodeado pelo auxílio do trovão. Com uma única página, a habilidade notória de Bor já é estabelecida e dá para notar que derrotá-lo não será nem remotamente fácil.

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A luta segue e aqui Straczynski e Coipel fazem o favor das imagens falarem por si. Através de um layout simétrico inicial em 1, o efeito aqui é duas forças da natureza em rota de colisão acumulando energia através das chamadas linhas cinéticas paralelas (recurso fácil e eficaz dos quadrinhos para demonstrar velocidade), para chegar na proximidade perigosa do 2. Encerrado o arremesso, Coipel escolhe fazer um jogo inteligente de sopreposição dos painéis da narrativa, assim reforçando a sensação transmitida de “encurralamento” entre Thor e Bor se empurrando, que remete a uma sensação de apertado e difícil. Nota-se também que o desenhista não poupa os civis da ação, em vez de caracterizar a luta como a frequente e entediante selva de concreto convenientemente vazia em que os embates entre super-humanos costumam se desenrolar, o que gera a sensação de fragilidade e urgência em remover Bor da cena o mais rápido possível.

A brutalidade do confronto faz Thor duvidar sobre as suas próprias capacidades, perante o poder imparável desse atacante até então desconhecido. Então, como um último recurso desesperado, ele brada pelos Vingadores, mas o resultado não era exatamente o que ele esperava.

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Totalmente não suspeito

pinterest.com

Talvez aqui é o único ponto da história que é um problema. A inclusão gratuita da (na época) nova formação dos Vingadores não tem nenhum propósito a longo prazo. Primeiro, porque se fosse para eles aparecerem, o lógico seria que fosse para dissuadir os dois, mas eles aparecem por um chamado do Thor, e não pela destruição óbvia. Seria como o Exército japonês ficasse inerte assistindo a destruição de Tóquio pelas mãos do Godzilla até ele gritar o nome de um tokusatsu ruim qualquer. E por último, eles são facilmente derrotados, não adicionam nada e isso não faz o M.A.R.T.E.L.O. imediatamente tomar providências contra o reino de faz de conta que era Asgard de Oklahoma, mesmo com o Osborn e companhia levando um cacete de dois gigantes (e considerando que Norman tem uma mente tão equilibrada quanto um show circense itinerante de baixo orçamento que precisa de 15 palhaços em cima de um monociclo, em vez de se enfurnar dentro de um Fusca). Em suma, essa inclusão fica datada com o tempo e não tem nada a ver com o rumo principal da história. Aliás, esse vexame que os Vingadores sofrem não é mais mencionado nem mesmo em O Cerco, história na qual o M.A.R.T.E.L.O. de fato toma medidas para atacar a cidade dourada.

Os Vingadores de meia tigela foram defenestrados um por um, mas faltava solucionar o problema principal. Logo, para terminar o conflito excruciante, Thor, nessas páginas, lança a última cartada canalizando toda a sua força de vontade:

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Como Fazer História na Arte Sequencial: módulo I

http://www.outrightgeekery.com

Capa esvoaçando, prosa sufocada e uma rima temática com o oponente. A receita para um gran finale excepcional. Porém com um custo altíssimo para Thor.

Não tarda até Balder e Loki chegarem, e Thor ser informado da gravidade do crime que cometeu: assassinar o seu próprio antepassado. Confuso e sem ter ao que recorrer, Thor é banido de Asgard, deixando o caminho aberto para as maquinações de Loki, que incluem uma aproximação com um certo latveriano chamado Victor von Doom.

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— Vitória  —

Resumo da ópera

Thor #600 é uma história brilhante por dois motivos muito bem definidos: planejamento e ambição. Nela, foi retratado o que sem dúvida é a maior e mais significativa luta que o Thor já enfrentou nos anos ’00, não só pela magnitude destrutiva resultante do encontro desses titãs asgardianos, como também pelas repercussões severas que criou em seu título, que foi feita de forma muito orgânica, sem chamadas de capa espalhafatosas, e magistralmente representada ao longo de quarenta páginas. Também é louvável o fato de que em vez de ser alguma historieta auto-congratulatória batida que fizesse uma modorrenta homenagem aos tantos anos que esses personagens estão aí, Straczynski optou por seguir um plano concreto de fazer Thor, o príncipe de Asgard, ser derrotado moralmente e ser destituído desse título, tudo isso de forma redondinha, e que combinasse com o clima de desesperança que era o Reinado Sombrio, quase que uma desconstrução não intencional do otimismo ingênuo dos anos 60. Em particular, aqui temos um Coipel inspirado que usa cada décimo de sua engenhosidade para o leitor captar a intensidade pretendida na história.

Essa, portanto, é a minha “Thor de pé na ponte Bifrost arqueando o Mjolnir em iminência de golpear o todo-poderoso Surfista Prateado” pessoal. E, não por acaso, é uma história de super-heróis na sua melhor forma possível.

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