O Fabuloso Destino de Gisèle Alain

Tal qual os quadrinhos ocidentais, as incursões dentro do mundo dos mangás são uma roleta russa: um constante exercício mental de repetir o mantra “por favor, não jogue fora os trinta e sete minutos que passei navegando no mangaupdates  procurando a combinação de tags perfeita com decisões ruins de roteiro, sexualização gratuita de menores como se fosse algo socialmente aceitável e inclusão repentina de irritantes personagens arquétipos japoneses clichês,  por favor, não jogue fora (…)” conforme se vai avançando na leitura. De vez em quando, a tentativa dá certo, e é possível achar material como o charmoso Gisèle Alain.

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Desisto de tentar saber se é uma crase ou um acento agudo no “e” de “Gisele”

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A obra, de autoria de Sui Kasai (nunca ouvi falar) e publicada em duas revistas distintas ao longo de sua existência, é um slice-of-life dentro de um contexto vitoriano e se trata de Gisèle Alain, uma femme-à-tout-faire  (de acordo com meus três exercícios em francês no Duolingo, equivalente a “Jack-of-All-Trades” ou Severino Quebra-Galho) de 13 anos e suas interações com as pessoas desse mundo ao realizar serviços de diversas naturezas, o que inclui arrastar nessas empreitadas o frustrado jovem escritor com quem divide o apartamento, Eric. Meu prazer em começar a preparar o escarro na minha boca para cuspir com tudo em cima do que parecia mais um arremedo de história que satisfaz anseios adolescentes com alguma Manic Pixie Dream Girl alternativazinha irritante foi rapidamente substituído por um deleite puro em passar os olhos pelas páginas deste mangá peculiar.

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“Dos diretores de Pequena Miss Sunshine”, no meu mundo, não é exatamente um bom agouro

Nesta obra, o estilo artístico de Kasai casa perfeitamente com o tom delicadamente agridoce da trama, seja por escolha intencional, seja por limitação de capacidade. Claro que aquelas retinas estupidamente irreais incomodam um pouco à primeira vista, mas aí até o Vinland Saga tem aqueles olhos grandes e bocas ovais, então isso deve ser alguma forma que a minha cabeça inventou de fazer nitpicking ao pensar nos mangás que eu gosto. A arquitetura é suficientemente convincente e o ambiente composto livros, cavalos e elementos com toques de barroco são uma boa composição geral para gerar imersão na época.

Através dos trabalhos aos quais Gisèle faz, que vão de limpeza doméstica a encontrar um gato perdido, a autora começa a mostrar um senso preciso de worldbuilding coeso, mesmo sendo no interior de um microcosmo tão pequeno como o bairro na França onde as coisas em questão se desenrolam, assim como é bem-sucedida em tecer sutilmente uma série de relações entre os personagens principais e suas interações com os coadjuvantes. Sempre é exibido aspirações claras e verossímeis, as quais é possível se relacionar com. Eric, principalmente, incorpora o dilema humano infindável que é confrontar a realização de seus sonhos contra a dureza do mundo real, as expectativas alheias e os desafios de abrir mão do que gosta para continuar sobrevivendo, o que suscita a pergunta “o que estou fazendo da minha vida?”. A área cinza de sua relação com Gisèle, narrativamente, é composta através do recurso interessante de omitir relatar completamente a natureza dos verdadeiros sentimentos que nutrem um pelo outro, deixando no ar essa interrogação ao longo da história, assim como o que de fato acontecerá entre eles. E também é o que deve gerar a maldita insistência de comparações com Emma, além do período histórico.

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De acordo com o Woody Allen, seria perfeitamente OK e socialmente aceitável.

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Por mais que os eventos retratados em Gisèle Alain sejam episódicos, o fio condutor do desenvolvimento desses personagens ainda são conservados, porém engrenados de maneira lenta. Talvez o grande erro de Gisèle Alain foi utilizar a técnica Don Draper de, de cara, revelar ao espectador o passado de Gisèle muito cedo, para justificar sua situação no presente, um flashback que não só se mostrou incapaz de segurar um mistério, como também não conseguiu se encaixar organicamente no período em que aconteceu. Mesmo assim, a história ainda mostra gás para prosseguir, apesar de oficialmente estar em hiato enquanto Kasai pensa se é mais difícil que Alain impeça a destruição da Terra ou desembolar o rolo das edições atuais.

Basicamente, o que torna essa leitura meigamente especial são os contrastes da mentalidade açucarada de Gisèle com as banalidades do cotidiano da fria e velha realidade francesa, quase como se fosse alguma espécie entre um Mushishi europeu (pelas figuras diferentes encontrados pela estrada) e um Yotsubato requintado (pelas reações de espanto da garota com as frivolidades humanas). Talvez um pouco artificial aqui e ali, uma ou outra resolução de problema inverossímil, mas os sentimentos leves transmitidos para o coração do leitor são viciantes o bastante para a hipnose nos cegar essas gorduras.

12 xp no Francês do Duolingo atualmente.

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