Um ano de Batman v. Superman – A Epopeia do Fracasso

 

“That’s Superman gone bad. If Superman grabbed your arm and pulled really hard, he’d pull your arm out of your socket. That’s the thing you don’t see in a Superman movie. But in Watchmen, what you get is, like, ”I’m a Superman, and I really want to help mankind — but I just tore this guy in half by accident. People call me a ‘superhero,’ but I don’t even know what that means. I just blew this guy to bits! That’s heroic?”

(Zack Snyder definindo o Dr. Manhattan em uma entrevista de 2008, a respeito do filme Watchmen)

Prólogo

2013 foi um ano difícil para o Super-Homem. O segundo ano percorrendo o caminho do calvário dentro dos Novos 52, no qual de seis em seis meses se inventava uma nova fase estapafúrdia para acender os seus títulos nos rankings de venda mensais em conjunto com um jogo vulgar de luta cuja premissa, elaborada em um brainstorming dentro de uma dispensa com a central de ar quebrada por quatro adolescentes,  um peixe-beta dentro de um aquário mal higienizado e dois mico-leões dourados, é “e se nós pegássemos aquela revista lá, Reino do Amanhã, imitasse o motivo pelo qual o Super-Homem se afasta da sociedade, só que em vez disso ele resolvesse matar geral e dominar o mundo?”. Essas representações pelas mídias no ano em questão tinham falhas fundamentais, mas talvez houvesse uma chance de alterar esse panorama distorcido, através de tomarem o desafio para si de rebootar, nada mais, nada menos, do que o maior de todos para o cinema.

Depois do balde de água fria que foram os desempenhos de projetos como os de Lanterna Verde e Jonah Hex nas críticas e bilheteria, a exigência para fazer um filme, e de um medalhão ainda, era de que a iniciativa passasse confiabilidade na ideia e nos responsáveis. Man of Steel (que segue a moda Dark Knight de “somos crescidos demais e usamos a alcunha dos personagens em vez dos seus nomes de fato”) foi confirmado sem muito barulho, como se não quisesse nada, mas com dois componentes na equação que chamaram a atenção: Christopher “David Lynch de pobre” Nolan como produtor do filme, que vinha de um tépido e truncado The Dark Knight Rises, com a trilha sonora do “já fui bem melhor” Hans Zimmer e Zack Snyder na direção, o homem com tiques de direção esquisitos que fez a proeza de bidimensionalizar personagens originalmente tridimensionais em Watchmen, em 2008. Por meio de uma média aritmética de caráter qualitativo desses três, era possível depreender que o resultado pelo menos seria no mínimo mediano, afinal até os trailers, apesar do visual sempre duvidoso em conjunto com a praga venérea que é a mania do overdesign em trajes de super-heróis nos últimos anos, possuíam algo minimamente intrigante.

Ledo engano.

Talvez fosse mais apropriado chamar essa filme de “Bizarro”, porque os resultados mostrados são perfeitamente opostos aos valores do Super-Homem ideal, e de cara ainda destrói um dos seus conceitos mais interessantes, que é sustentar a relação de contraste com a enérgica e cínica Lois Lane usando a faceta do ingênuo, desengonçado e caxias Clark Kent, tudo isso conciliado com o lado do Homem de Aço, o alienígena de um mundo condenado que mesmo com o potencial de arrasar o planeta Terra com um sopro, opta por fazer a coisa certa de bom grado. Poderia-se dizer que um ou outro lado dele é uma máscara, porém, na verdade, ele é um raro caso no qual esses dois trejeitos não são mutuamente exclusivos, ou seja, eles são genuínos simultaneamente, o que o torna Kal-El ainda mais interessante. O filme Superman III não foi um fracasso só por causa do Richard Pryor e do plot ridículo, mas também pela ideia malfadada da separação das personas dele e da perversão do lado super-heróico. De Lois e Clark: As Novas Aventuras do Superman a Smallville, as audiências começaram a cair, respectivamente, exatamente no momento em que a questão do seu alter ego era banalizada e descoberta por terceiros. Em Lois e Clark, especificamente, no momento do seu casamento, o principal elemento atrativo na série é perdido, afinal, o conflito e expectativa sobre se eles iam ficar juntos era resolvida, mas a história continuava.  Enquanto que no universo DC dos quadrinhos atualmente isso funciona bem, pois há um desenvolvimento progressivo disso para chegar neste determinado momento (claro que muito lento e fruto de centenas de edições, mas considerando que é parte do mercado mainstream americano, já é uma vitória)  nos cinemas, a sequência de Man of Steel já estava inevitavelmente perdida, porque decidir isso logo no início do estabelecimento do personagem é um mau negócio.

Lois comes clean

Hm.

Tudo está saindo conforme o planejado

Com o conceito de Marvel Cinematic Universe por aí rolando solto, empreendimento o qual pode ser resumido como filmes feitos com uma frieza semi-industrial que rendem um lucro desproporcional aos seus espíritos, a divisão de filmes da Warner Bros. começou a ponderar sobre o desenvolvimento de algo análogo, o que supostamente de cara daria a vantagem de usar os personagens que lhes aprouvessem, pois os direitos são só deles. Então, talvez fosse hora de fingir que o easter egg do satélite destruído (se fosse só isso que tivesse sido quebrado no filme…) com o provocante nome “Wayne” em Man of Steel era tudo parte de um grande planejamento genial e, eis que na San Diego Comic Con de 2013, alguém lê a passagem mais memorável da obra seminal O Cavaleiro das Trevas do nada e em um piscar de olhos a ruína está confirmada: “ainda não saturamos o Batman o suficiente! Não só vamos fazer ele interagir com o Super-Homem, como também vamos sugerir implicitamente que ele é mais importante do que o Super-Homem neste logo aqui! E o melhor! Será o ‘Batman do Cavaleiro das Trevas’ contracenando com o Super-Homem começando a carreira”. O mais assustador é o som das pessoas verdadeiramente empolgadas com isso.

O tempo passava e as coisas pareciam ainda mais estranhas ao longo de três anos. A falta de um título oficial, atrasos em relação aos filmes do Marvel Studios saindo precisamente e fazendo essa coisa de super-herói ser cada vez mais chata, o casting mais bizarro do que os personagens médios de um filme ruim do Wes Anderson (O Demolidor, o Zumbilândia e o pobre Jeremy Irons arrastado para fazer o Alfred), e imagens conceituais que na prática nada diziam. Até que, em determinado momento, foi anunciado o nome oficial, que gritava aos quatro ventos “FUI FEITO PELO EQUIPE DE MARKETING!!!!”, Batman v. Superman – A Origem da Justiça, título este não muito diferente de uma chamada de luta como “UFC 194 Connor McGregor vs José Aldo”, o que por sinal evidencia a equivalência das suas profundidades. Se até aquele momento alguém ainda não tinha inferido que o torturante e pretensioso BVS não ia ser nada além de uma pornografia super-heróica travestida por uma interpretação superficial de Assim Falou Zaratustra…

BVs-super2

Pelo jeito, o Super-Homem representado assim é que vai ficar no imaginário da próxima geração. Não é no mínimo curioso que em 2005 foi exatamente assim que o Azarello e o Bermejo escolheram como o Lex Luthor vê o Super-Homem?

Depois de 3 trailers expositivos e sem graça (não decepcionantes, pois o conceito de decepção pressupõe expectativa prévia), o filme, tão previsível quanto dolorosamente, foi um fiasco e um enorme desserviço às figuras dos personagens principais. O roteiro do Terrio e o do Goyer não é exatamente digno de uma bomba, mas antecipa desnecessariamente muitos passos do que seria um bom compasso narrativo para o universo DC ao fazer a narrativa desperdiçar um tempo precioso com a inserção de referências deslocadas a determinados eventos de quadrinhos em nome do “fanservice”, o que, na verdade, é um tiro pela culatra, pois torna o filme um verdadeiro clusterfuck sem a menor coerência a senso de planejamento sólido, além de torná-lo inacessível ao público. Enquanto isso, os rumos da direção do Snyder permanecem os mesmos desde o remake de Madrugada dos Mortos: a insistência em vícios de filtros cinzentos e em slow motions, somadas com a iconografia cristã óbvia e barata advinda do Man of Steel. Cinematograficamente, o filme seria mediano, se não fossem as inversões dos conceitos fundamentais dos personagens relevantes, como o Lex Luthor, o Batman e sobretudo o Super-Homem e sua face insuportável de sofrimento como se carregasse todos os problemas do mundo a contragosto como se vivesse no universo do Charlie Brown, tudo isso trajando uma irritante máscara pseudo-filosófica. Na verdade, do conjunto de tudo isso, a verdadeira surpresa é a insurgência significativa de gente defendendo todas essas decisões, porque aparentemente é um exercício de desconstrução brilhante, ou seja, aquela palavra da moda nos últimos 7 anos. Jacques Derrida, para conceituar “desconstrução”, propõe que se deve conhecer os conceitos originais plenamente, e é certo que a visão limítrofe do Snyder desconhece-os. A propósito, a percepção visual de cor imbuída em um determinado símbolo ou figura é a ferramenta psicológica mais fundamental para transmitir um determinado conceito, pois ela facilmente nos permite corresponder a um conjunto de conceitos. Matar a cor em prol de algum tipo incompreensível de profundidade narrativa “adulta” implica também em assassinar a assimilação dos signos originais dos personagens da trama.

Legado

É necessário ter em mente que o que conhecemos como super-heróis não passam personagens criados nos quadrinhos como sustento provisório de judeus pobres nos EUA pós-crise de 29, cujos próprios autores cagavam para eles. Através de re-imaginações ao longo do Século XX, esse panteão foi agraciado por fases sólidas e boas histórias, que em comum tinham: re-interpretações dos conceitos originais e extrapolações, mas sem remover o núcleo do que os torna especiais. Essa mentalidade perpetuada nos atuais filmes da DC não só é um insulto ao séquito que consome o material original, como também custaram bem caro em cima da credibilidade deles como potência de criar bons filmes. A Liga da Justiça vem aí, mas é impossível ter confiança em relação a uma obra que é consequência de uma série de revezes. O suposto trabalho intelectualizado e superior em cima deles é uma desculpa ofensiva para justificar as distorções nesses ícones, e que deixa a cara do DCU ainda mais pedante e antipática, mesmo dispondo de um material excelente das suas histórias a serem adaptados de forma correta. Se alguém ainda gosta disso, só resta “torcer” para a Liga ser o menos corrompida possível por uma visão idiotizada de super-heróis.

E por fim, falta a compreensão ao Snyder de que o Super-Homem não é um Deus amargo entre os homens, e sim um anjo que desceu dos céus.

Epílogo

O BVS concertado antes mesmo de surgir,  Super-Homem e Batman do universo do Bruce Timm (especial “World’s Finest” do desenho da década de 90 do Super-Homem).

Epílogo 2

batman-vs-superman-negative-reviews

“Your new empire?”

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