Tio Sam – O Veredicto da Legião

O exercício de ler alguma obra dentro do Santo Imaculado Selo Vertigo sempre incorre na possibilidade de na verdade, no fim das contas, ela não ser grande coisa. Por consequência, tal acontecimento nos faz ponderar se o que nos restava de inteligência foi asfixiado por anos a fio de leituras de vingadores psicóticos obcecados com um jeito duvidoso de se vestir, e temer o tribunal opinativo alheio que mantém uma folha em Couché escrita “Vertigo” na parede em que seu genuflexório está posicionado e que subitamente já se considera “inteligente demais” para se dar ao árduo trabalho de ler esses mesmos “vingadores psicóticos obcecados com um jeito duvidoso de se vestir” descritos acima. Mas  dito isso, e aí, qual é a desse Tio Sam (Steve Darnall e Alex Ross, duas edições, indicado ao prêmio Eisner de 1998)?

Nos áridos anos 90, Alex Ross surgiu com alguma forma de toque messiânico nas obras em que tocava, como o e descarado exercício de masturbação que é Marvels (1994) e o excelente Reino do Amanhã (1996), então nada mais apropriado do que esse homem na frente de um projeto de caráter entre o épico e questionador com um personagem do imaginário popular americano que é também parte personagem da DC Comics, não? Bom, pior que sim.

O seu estilo artístico, no que diz respeito a quadrinhos no caráter de “arte sequencial”, tem um calcanhar de Aquiles grave: a sua costumeira representação rígida e posada não transparece a sensação de movimento inerente do explosivo gênero de quadrinhos de super-herói, precisamente o lugar onde ele começou a brilhar. Mesmo ao trazer à vida esses personagens, no fim das contas eles estão congelados no tempo e dificilmente a transição de um quadrinho para o outro reflete alguma sensação natural de fluxo, o que faz parecer que o leitor na verdade tem em mãos um livro ilustrado (o que a coletânea The World’s Greatest Super-Heroes, em co-autoria com Paul Dini, praticamente é, pois abre mão de balões). Fotorrealismo ímpar não significa necessariamente uma técnica de storytelling competente.

Mas aplicada no contexto do gibi, a história é outra. O caimento do tecido das lendas dos universos Marvel e DC cobrindo aquelas os corpos daqueles personagens históricos agora com caras de Reader’s Digest os eleva a um patamar divino, e dá a genuína sensação de vida a personagens e conceitos absurdos de oitenta anos atrás. Logo, para materializar a grandeza da personificação do ideal americano (e tecer uma crítica corrosiva a isso ao longo da história) e fazer o leitor se perguntar, página por página, como ele faz essa mágica, ninguém melhor do que ele.

legiao-do-mal

Legião do Mal, caracterizada por Alex Ross na série Justiça. Espírito e vitalidade incutidos mesmo numa história irremediavelmente insossa como essa.

 

Dado o público-alvo, na obra foi possível utilizar um tipo de narrativa que anda de forma tão linearmente simples quanto uma manada de búfalos cegos após uma explosão atômica, que costura e entrelaça o passado, o presente e a imaginação febril do protagonista de forma lisérgica, que, como efeito de narrativa, transporta a percepção confusa de mundo do Tio Sam para o leitor, o que gera um incômodo perpétuo, como se estivesse continuamente dentro de um pesadelo imprevisível que só piora e que Bea parece cada vez mais longe. Em vez do belo pelo qual o desenhista é conhecido, aqui Ross prioriza explorar a faceta visual imunda e bagunçada. Porém, como dito anteriormente, o outro incômodo é como as ações não parecem se movimentar naturalmente de um quadrinho para o outro, tudo isso acompanhado de uma quadrinização estranha. Um espetáculo visual, mas com uma constante impressão de algum osso estar deslocado dentro desse corpo.

Em uma segunda pensada na poltrona a respeito da trama, é possível sacar que ela pode ser resumida como “crítica social batida #77”, do tipo “nossa, como, na verdade, somos corruptos e amorais!”. Como diferencial, é notável a prosa maquiada e o trabalho de pesquisa no aprofundamento de representação visual e narrativo da história dos EUA e a originalidade em trabalhar os lados escusos dos seus conflitos ao longo do tempo através de uma prosa minuciosa, mas lamentavelmente isso não só torna o conteúdo um pouco exaustivo, como também parece muito trabalho para provar um ponto banal como “uau, por que será que nossos ideais ilusórios de honra e patriotismo não são colocados em prática na sociedade americana, apesar de que há um século até hoje gostamos de estampar essas palavras na nossa bandeira encharcada de sangue?”. Apesar da ideia de enriquecer a história com a presença de personagens antropomorfizados que representam a Rússia e a Inglaterra (mesmo com o gosto por diálogo expositivo) para estabelecer a ideia de que pretextos com palavras bonitas são uma condição inerente ao homem dentro da vivência em sociedade, isso cai por terra logo com o final apressado que implicitamente diz “não entendeu mesmo eu batendo nessa tecla de três em três páginas? O Tio Sam do mal explica de novo!”.

defeito de fábrica

Steve Darnell (2009)

Não sei qual o ponto do final. Otimismo? O infindável embate entre o senso de moralidade cristão no qual o povo americano gosta de fingir praticar para justificar suas ações versus a realidade crua da complexidade sócio-econômica do país? Niilismo? Um exercício visual sobre algo que já se é amplamente sabido? Alex Ross é um caso no qual os desenhos fazem a história parecer melhor do que ela de fato é, entretanto aqui essa ilusão não se sustenta. Seja lá o que for, o que dá para saber é que são temas grandiosos demais de forma tão tangencial e com explicações tão senso comum quanto as utilizadas na história não fazem a sua leitura valer a pena.

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