Todd, o Menino Mais Feio do Mundo (Image Comics) – O veredicto da Legião

O uso (e consumo) de humor negro óbvio e barato em obras de diversas mídias nos últimos anos ou é reflexo de uma leva asquerosa de adolescentes cretinos integrantes da Placa de Petri que é a internet, os quais realmente acreditam que afirmar de forma tão frequentemente agradável quanto uma infecção urinária que possuem um senso de humor amargo os torna minimamente especiais e maneiros, ou consequência desse tipo de idiota penetrar o mercado consumidor de quadrinhos, que aliena a produção criativa a permanecer insistindo nesse mesmo terreno estéril e cancerígeno, com as mesmas técnicas manjadas de violência gratuita e quebras de quarta parede repetidas ad nauseum.

Felizmente, não é o caso de Todd.

Todd, o Menino Mais Feio do Mundo é um gibi de 8 edições publicado em 2013 pela Image Comics (o que há vinte anos seria um estigma terrível) cujo ponto de partida é a vida de um garoto ridiculamente alegre e otimista cujo rosto não é mostrado e que aparentemente é portador da Síndrome de Conrado (inclusive, personagem esse baseado no sobrinho de um dos autores), em contraste direto com os gratuitos maus-tratos das pessoas ao seu redor e de sua família disfuncional, tudo isso em paralelo com um serial killer à solta na cidade, perseguido por um oficial de polícia ególatra. Como o pacing da narrativa é continuamente acelerado ao longo das oito edições, era de se esperar que essas tramas facilmente se entrelaçam e, dado o tom dos agouros do protagonista, resulta na sua inevitável prisão acusado pelos assassinatos pelo desagradável policial. Portanto, a história se desenrolará até o fim baseada nas interações de uma criança incauta dentro das mesmas paredes habitadas pelos piores tipos de monstros que a sociedade tem a oferecer? Não.

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Ain Orange is the New Bl–

http://www.bedecine.fr/

 

O dinamismo da história é a sua maior qualidade e ao mesmo tempo que a sua maior fraqueza. Dado o planejamento de ser uma história curta e contida em si, mesmo com ela transmitir a ilusão inicial de que a premissa será de tal forma, em cada nova edição as cartas do jogo tecido pelos autores são completamente embaralhadas através de novos personagens esdrúxulos inseridos na trama acompanhadas de situações nonsense cada vez mais exageradas. Então, isso significa que em vez de existir um grande arco da primeira edição à oitava, foram construídos mini-arcos fragmentados cujas repercussões alimentam o próximo, o que por consequência, mesmo que os diálogos afiados e das críticas ácidas pontuais à camadas sócio-culturais contemporâneas como o americano médio ao próprio público que compra quadrinhos transpareçam uma ideia central de escárnio a tudo, isso torna a moral da história não pregnante, isto é, se é que dá para traçar alguma forma de mensagem autoral no desfecho da trama. Em suma, esse ato de “atirar para todos os lados” faz com que a obra revele que tem uma capacidade de foco e concentração comparável a de um cão hiperativo e dilua seu inicial brilhantismo, como o delírio metanfetamínico da metade para o final da história que reúne personagens do imaginário popular como Satã e Papai Noel embolados no mesmo caldeirão, e “boa sorte para você que comprou e está lendo nosso gibi em juntar mentalmente os pontos. Lembram-se daqueles nossos personagens originais e criativos do começo? Esqueçam, tomem uma miscelânea desorganizada de webcomic ruim. Na verdade, quer saber? Foda-se você também!”

lol

lol XD

 

De qualquer maneira, é sempre agradável a sensação ao longo da leitura de que os visuais estão bem casados com o clima da história. Análoga à sincronia mística que o Garth Ennis tinha com o Steve Dillon em retratar o absurdo e o vexatório nas páginas de Preacher e na reformulação de 2000 do Justiceiro, aqui é possível perceber uma grande complementação da arte caricata do desenhista turco M.K. Perker com o roteiro insanamente cruel bolado pela cabeça doentia do Ken Kristensen. Mesmo que todo o seu universo de personagens seja constituído de babacas escrotos e demônios (incluindo o próprio rei deles), há uma misteriosa empatia que eles emitem que proporciona a curiosidade de saber o que vem pela frente.

Dentro deste quadro da abertura do mercado brasileiro nos últimos anos a um tipo de obra mais adulta e diversificada do que o estranho apego por super-heróis e sua incompreensível carga cronológica, em conjunto com essa safra de material bom da Image desde 2012, resta torcer para que ele chegue no Brasil, pois certamente vale a leitura.

Desmascará-lo no final da história seria uma decisão tão inteligente quanto fazer isso com o V.

 

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