Luke Cage – O veredicto da Legião

Parem as prensas! Mais uma nova série do Netflix no máximo morna e duvidosamente semelhante a algo já feito no passado para ser a nova “melhor série gnt!!!” por dois meses consecutivos até cair no mais profundo esquecimento. Não se trata de Stranger Things, mas sim de Luke Cage.

Assim como o Doutor Estranho, Luke Cage  é aquele personagem irrelevante e desconhecido que em algum tempo após o anúncio de sua ida para uma mídia abrangente áudiovisual, faz misteriosamente pipocar fãs jurados e de conhecimento abalizado sobre eles, até mesmo se sabendo que eles só devem ter ganhado uma adaptação porque os produtores e os executivos não tinham planejado mais nada além da décima-quarta sequência dos Vingadores e alguém na sala de reunião provavelmente opinou que no sétimo já começaria a ficar meio chato, e que talvez fosse uma boa ideia, a partir da Fase 3, começar a fazer filmes, séries e fraldas geriátricas baseados na “random page” da Wikia da Marvel.

Não só depois de não aprender com Demolidor e com Jessica Jones que prolongar as coisas para 13 episódios dentro de uma premissa que ficaria enxuta em 9 faz o espectador não se importar com mais nada do que está acontecendo ou para os personagens, alguém deve ter tido a ideia de mergulhar na lixeira do set da série do Hulk do Bixby e do Ferrino com o intuito de adaptar um roteiro rejeitado de episódio para estabelecer o tom da série. A propósito, lamento se a minha completa falta de noção sobre o Luke Cage ofenda o recém-adquirido conhecimento wikipédico geral a respeito das origens de um personagem que protagonizava uma revista obscura dos anos 70 que vivia tão frequentemente no bico do corvo no que diz respeito a cancelamento, que foi unida com a do Punho de Ferro para tentar evitar que ambos fossem para o limbo.

587bfa2d434a4c4b6abc319ae4eae61a

Talvez fosse mais interessante ver isso

                                                                                                Pinterest.com

O roteiro da série parece ter tanta predileção por resoluções previsíveis para conflitos que se o título fosse “Mestre do Óbvio“, não existiria prejuízo de sentido. Mesmo possuindo um diálogo ok e personagens interessantes às vezes (menos o próprio protagonista), a trama é repetitiva, tanto dentro de si mesmo quanto para efeito de comparativo com o que já foi feito por aí com outras histórias. A situação de um rei do crime intocável cuja moral é que o sistema não funciona está longe de ser novidade até mesmo dentro do casamento Marvel/Netflix (vide Demolidor). O subtexto religioso de cada personagem não é somente gratuito e brega, como também é exposto de uma forma que pode ser definida como o antônimo do conceito “implícito”. “Não ficou claro pra você? Vamos chamar as balas que podem penetrá-lo com o material forçado de nossa divisão-prima de filmes de ‘Judas’! Essa até merece um almoço mais cedo!”. Aliás, já está na hora de as séries superarem o “incidente” depois de tantas outras coisas que já aconteceram e que eles fingem se importar para parecer que se passa no mesmo universo. Ou elas ficam autônomas entre si de uma vez ou mencionando uma invasão alienígena com pouco ou nenhum impacto sócio-cultural na sociedade além de um bairro destruído pelos próximos 15 anos.

O valor do “socialmente consciente”, como consta no Rotten Tomatoes, é no mínimo furado. Ao longo da série, essa questão é tão sutilmente tratada quanto um vídeo didático escolar modorrento para fins educacionais, beirando à vergonha alheia às vezes, com um texto próximo de senso comum (pelo menos dá para se dizer que a série é tematicamente coerente nos recursos pobres, porque as referências cristãs soam da mesma forma), ou talvez sejamos muito culturalmente distantes do microuniverso social do Harlem para conseguir compreender as coisas de forma mais empática. De uma forma ou de outra, a discussão etno-histórica da trama (se é que esse termo existe) não representam nada significativo para a história em si e na verdade não agrega “valor” nenhum ao seriado como produto, porque na verdade ela corre em segundo plano e quase em paralelo, uma vez que as engrenagens do roteiro se movem através de motivações banais e desprovidas de senso de originalidade, como o “falsamente acusado”, “papai amava você e não a mim” e “passado triste ainda mais agravado agora porque até a única pessoa em quem eu confiava mantinha segredos sombrios sobre mim”, somados com o “superpoderes obtidos em um acidente”.

A trilha sonora é bem pontual e oferece uma rima temática satisfatória para as cenas e os personagens, mesmo o carisma deles serem diluídos pelas recorrentes situações clichês imersas no filtro amarelo e preto, mas ela em si não salva nada, porque supostamente, numa mídia áudio-visual, a qualidade da música isoladamente não corrige problemas intrínsecos de narrativa truncada, e sim serve para complementar a produção de sentido exibida. Dizer isso sobre essa série do Luke Cage, especificamente, é comparável a falar que ouvir uma playlist de Spotify do hipster do hip-hop mais pretensioso do mundo durante uma ida para uma agência da Caixa Econômica do outro lado da cidade para resolver problemas de previdência indo em pé dentro de um ônibus lotado, enfrentando uma fila quilométrica para depois descobrir que o “sistema caiu e seu problema não poderá ser solucionado”, voltar pisando no chiclete e no cocô do cachorro e ao virar na esquina de casa ser assaltado e esfaqueado no pâncreas e sendo deixado sangrando para morrer é uma “experiência agradável por causa da trilha sonora FODA“.

Caso o projeto dos Defensores da Netflix fosse uma revista periódica da Panini, Luke Cage seria aquela história meio qualquer coisa de um desenhista mais ou menos para preencher lacuna e ler relutantemente para que a exorbitância que é o preço de capa da edição investido seja aproveitado até a última gota. A única diferença é que a formação dos Defensores da Netflix tem personagens com mais coisas em comum do que as histórias publicadas no mesmo mix no Brasil.

agosto08

Também conhecida como “Revista Foda-se”

http://www.marvel616.com

Um comentário em “Luke Cage – O veredicto da Legião

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s