O Inesperado

Publicar alguma produção de conteúdo na internet é como enviar uma mensagem engarrafada de um arquipélago inexplorado através de um oceano de urina, com a esperança de que ela chegue nos remetentes certos. Talvez esse gibi valha o esforço.

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O problema, ou melhor, a consequência mais irritante em qualquer coletânea de one-shots é, por vezes, a utilização de boas ideias que nunca mais poderão ser classificadas como “originais”, porque alguém já usou tendo como desenvolvimento somente poucas páginas. Com isso, “O Inesperado” do selo Vertigo (publicado no Brasil em 2013 dentro do único mix periódico da Panini que, como tudo de incontestável qualidade nesse mundo, já foi para o bico do corvo faz tempo) é composto de várias histórias independentes nas quais o mote parece ser possuírem twists (o que faz o título parecer decepcionantemente previsível ou autoconscientemente irônico) bolados por vários autores e artistas renomados (isto é, “renomados” se você ainda for um desocupado que ainda se importa de verdade com quadrinhos a ponto de memorizar os nomes como prova de sua inequívoca superioridade moral frente aos “posers”), projeto esse que tirou da geladeira até o Dave Gibbons, que eu pensava que estava batendo a cabeça na parede de casa de forma ininterrupta desde o final de 1986, mas que uma pesquisa rápida na aba ao lado me fez ver que ele foi altamente produtivo na década passada em…Lanterna Verde…talvez a minha imaginação fosse um cenário moralmente melhor para ele. Remete a uma antiga revista de horror da DC ao qual eu desconheceria completamente, se não existisse o verbete dela na Wikipedia em inglês.

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                                                                                                                    babblingaboutcomics.wordpress.com

Maneiro

Infelizmente, pelo próprio título, pela atmosfera onipresentemente sombria (salvo o da história do Neanderthal colorizada pela Cris Peter),  e a aparente necessidade de alguma forma pegar o leitor com a calça arriada na maior parte dos contos, faz sentir sempre ao decorrer da leitura que a narrativa está caminhando para um desfecho que pode ser definido como o conceito mais distante de “feliz”. Nessa mesmíssima história, ver o espécime caminhando com o cientista carcereiro sonso transmite tanta tranquilidade quanto a de ser um técnico de fissão nuclear observando a contagem regressiva da sua usina atingir massa crítica. Em um conto em específico, em vez de ocultar o twistizinho para o final, ele está lá NA SEGUNDA PÁGINA! Não entendo de roteiro de um ponto de vista técnico, do nível estudante de Cinema deslumbrado pretensioso que curte no Facebook Clube da Luta ao lado de Pulp Fiction na aba de filmes, mas o consumo de mídias ao longo do tempo (vide algumas dessa própria obra, como a boa sacada do conto dos pilhadores) intuitivamente incutiu na minha cabeça que  a subversão de expectativa exige, de modo fundamental, um bom controle de pacing da narrativa, o que gera a gostosa sensação de payoff. Se o monólogo da história dos zumbis era alguma rima temática com um aspecto da vida contemporânea, para mim passou batido. E por falar em ignorância…

Desculpem-me se eu sou burro, “gibis adultos de autores inteligentes para leitores inteligentes”, porém não entendi plenamente a história da tribo feminina nem a do Gourd mexicano desde quando a li em um ônibus lotado há três anos até a minha releitura deitado na rede do meu quarto, então aqui, suponho que realmente é culpa da minha recém-adquirida capacidade de atenção de um Shar Pei decorrente do tártaro cerebral adquirido pelo meu contato com o que eu acesso na internet.

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                                                                                                                                                         trunkwee.com

Perdão pela ofensa, amigo

Como o volume diminuto das histórias impede de se comentar extensivamente sobre elas, talvez seja possível fazer um breve comentário sobre seu lado estético. O único trabalho destoante da cara Vertigo sujo/estilizado/tenebroso é o do Gibbons, reminiscente da anatomia perfeitinha e da representação fidedigna das coisas, provavelmente consequência de sua extensa bagagem em super-heróis mainstream. Uma pena que a colorização digital não favoreça o seu traço tanto quanto à técnica analógica usada outrora. O traço fluido da história dos Neanderthal é interessante, e para ser honesto, talvez todos os estilos visuais dessa compilação complementem bem com suas respectivas intenções autorais.

No frigir dos ovos, O Inesperado está longe de ser um gibi morno que esse nitpicking acima quer insinuar. É um sopro criativo experimental válido e talvez uma homenagem à altura da revista original, além de uma boa porta de entrada para o mundo Vertigo para você, que não satisfeito em fingir entender alguma coisa de super-heróis entupindo a sua namorada de mansplaining na fila e dentro da própria sala de cinema no próximo lançamento de mais um filme medíocre da Marvel, agora também pode bater no peito orgulhosamente e contar vantagem para os seus amigos sobre você conhecer “quadrinhos de verdade” depois de ler.

Curti bastante a história dos cachorros.

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